sábado, 19 de março de 2011

José, o Justo

Uma reflexão do Pe. João Batista Cesáreo, que retiramos do jornal da Arquidiocese de Campinas, e que entendemos muito apropriada para a solenidade de hoje:

Os últimos Papas foram unânimes na devoção a São José. Em 1870, Pio IX o proclamou Patrono da Igreja Católica, com festa a ser celebrada em 19 de março. Em 1889, Leão XIII publicou a primeira encíclica sobre São José, propondo seu exemplo de santidade como modelo para todos os fiéis. Em 1955, Pio XII estabeleceu a celebração da memória de São José Operário em 1º de maio. Em 1961, João XXIII confiou o Concilio Vaticano II ao patrocínio de São José e inseriu seu nome no Cânon Romano. João Paulo II, em Exortação Apostólica de 1989, destacou a figura e a missão de S. José na vida de Cristo e da Igreja, realçando sua participação no mistério da Encarnação.

Na piedade popular sua figura sempre esteve presente. Nos séc. XVII e XVIII surgiram na Europa, inúmeros escritos devocionais e tratados teológicos sobre São José. Nesse período, marcado “pelo advento do Iluminismo [...] São José foi redescoberto como o mestre da vida interior, vivida na família, no silêncio do trabalho e na cotidianidade da vida do dia-a-dia” (L. Boff. São José: a personificação do pai. Campinas: Verus, 2005).

Desde o sec. XVI surgiram na Igreja quase duas centenas de Congregações Religiosas, masculinas e femininas, sob o patrocínio de S. José. Milhões de pessoas no mundo levam seu nome (como o Papa Bento XVI, batizado Joseph), além de inumeráveis paróquias, escolas, cidades, lugares, instituições.

Contudo, da história de José há apenas breves relatos na Bíblia, nos quais ele aparece sempre em estreita relação com Jesus e Maria. De sua origem sabe-se apenas que era da linhagem de Davi; sobre sua infância, juventude e morte não há registros. Não era escriba nem fariseu; não pertencia à classe sacerdotal ou levítica; não servia à burocracia estatal como os cobradores de impostos e saduceus. Tampouco pertencia aos grupos judaicos piedosos da época, como essênios ou zelotes.

José era um homem simples, de Nazaré, lugarejo do interior sem importância. Era construtor-artesão, profissão igualmente simples. O construtor basicamente era um carpinteiro, que trabalhava com madeira, pedras e ferro, construindo móveis, casas, enxadas e outros utensílios. Por certo Jesus trabalhou com ele na carpintaria durante muito tempo, pois seus conterrâneos em Nazaré, escandalizados com o seu ensinamento, se indagavam: “Esse homem não é o filho do carpinteiro?” (Mt 13,55) ou “Esse homem não é o carpinteiro, o filho de Maria?” (Mc 6,3).

Chama atenção o silêncio de José: não se encontra nenhuma palavra dele nos Evangelhos. Seu silêncio, no entanto, é eloquente. “Sua fala não é por palavras, mas por atitudes, gestos, compromissos de pai e de esposo” (Ibid. p. 172). Seu testemunho de pai zeloso e esposo fiel é seu discurso. Enquanto Maria deu a vida a Jesus, José, com sua paternidade, o inseriu na história judaica, educou, introduziu nas tradições do seu povo.

O Evangelho de Mateus (1,19) elogia José chamando-o JUSTO, conceito que na cultura judaica se aplica “à pessoa que dá o valor exato às pessoas e às coisas; que age com retidão; que ama o direito e observa as leis” (Ibid. p. 59). Justo é aquele cujo testemunho de integridade irradia na comunidade e se torna referência para os outros.

João XXIII invocou a proteção de São José para o Concilio e bem sabemos da riqueza de seus frutos para a Igreja e o mundo. Por isso, na festa litúrgica de São José, esposo da Virgem Maria, invocamos confiantes sua proteção para o Brasil, para as famílias, crianças, jovens, professores, estudantes, trabalhadores, autoridades. Que aprendamos com São José a virtude da justiça, tão necessária aos nossos dias!



Padre João Batista Cesário é coordenador da Pastoral Universitária PUC-Campinas