segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

HISTÓRIA DO CANTO GREGORIANO

O Canto Gregoriano é a tradição central do cantochão ocidental (cantus planus), uma forma de canto litúrgico monofônico (a uma só voz) no cristianismo ocidental, que acompanha a celebração da missa e de outros serviços rituais. Esse vasto repertório musical é o mais antigo conhecido como tal, sendo o primeiro repertório a possuir notação adequada, a partir do século X. Em geral, os cantos eram aprendidos oralmente, via viva voz, o que levava anos de experiência nas Scholae Cantorum (escola de cantores). O Canto Gregoriano como conhecemos hoje nasceu na vida monástica, na qual se canta o Ofício Divino nove vezes ao dia, nas horas próprias que eram determinadas de acordo com a Regra de São Bento. O canto dos salmos fazia parte da vida na comunidade monástica, com a contraposição do coro com um pequeno grupo de cantores, ou solistas, na entoação dos cânticos.

Em sua longa história, o Canto Gregoriano foi submetido a várias mudanças e reformas graduais. Foi organizado, codificado, e anotado, principalmente em terras Francas da Europa Central e Ocidental durante os séculos XI e XIII (onde atualmente é a França e parte da Alemanha), com posteriores adições e revisões. Porém, os textos e muitas melodias tiveram antecessores seculares. Embora a crença popular atribua ao Papa Gregório Magno a invenção pessoal do Canto Gregoriano, estudiosos acreditam que ele só adquiriu esse nome a partir de uma posterior síntese Carolíngia do Canto Romano Antigo e do Galicano, durante o reinado de Carlos Magno. Além do que, naquele tempo se usava a figura de Gregório I como “marketing”, para revestir a mudança de “inspiração divina”, no esforço para criar um protocolo litúrgico que poderia ser praticado por toda a Europa. Um Império, uma Igreja, um Canto – a imposição da Unidade era uma questão central no período Carolíngio.

Durante os séculos seguintes, a tradição do Canto estava atrelada na tradição da música da Igreja, onde deu ascensão a várias extensões, no sentido de novas práticas interpretativas, que foram bem sucedidas, além da introdução de novas músicas sobre novos textos, ou ainda, cantos que já existiam e foram estendidos para formarem um Organum. Ainda que a música polifônica tenha surgido a partir dos veneráveis cantos antigos, nas Organa de Leonin e Perotin em Paris (1160-1240), elas terminavam em canto monofônico, e, em tradições posteriores, novos estilos de composição foram praticados em justaposição (ou coexistência) com o canto monofônico. Essa prática continuou até François Couperin (Barroco francês), cujas Missas com Orgão deviam ser executadas alternadas com o canto homofônico. Embora essa prática tenha caído em desuso depois do período Barroco, o Canto Gregoriano experimentou um reavivamento no século XIX na Igreja Católica Romana e na vertente Anglo-Católica, com a Comunhão Anglicana.

O canto sem acompanhamento é parte da Liturgia Cristã desde os primórdios da Igreja. Até a metade da década de 90 (séc. XX), foi bem aceito que a oração da salmodia judaica antiga teve influência significativa e contribuiu para o ritual cristão antigo, bem como com sua música. Essa visão, no entanto, não é bem aceita pelos estudiosos hoje em dia, pois as analises mostram que muitos dos antigos hinos cristãos não tinham os salmos como texto, e que os salmos não eram cantados nas sinagogas nos séculos depois da destruição do Segundo Templo (70 D.C.). No entanto, antigos ritos cristãos não incorporaram elementos do serviço litúrgico judaico que sobreviveu na tradição de canto posterior. As Horas Canônicas tem suas raízes na oração das horas judaicas. O Amen e o Alleluia vem do hebreu, e o Sanctus deriva do “kadosh”, parte do Kedusha.

O Novo Testamento menciona o cantar de hinos durante a Última Ceia: “quando eles cantavam o hino, eles saíram para o Monte das Oliveiras” (Mt 26,30). Outras testemunhas antigas, como o Papa Clemente I, Tertuliano, Santo Atanásio, e Egeria confirmam a prática, embora de forma poética ou obscura nos trazem uma pequena luz sobre a forma como a música soava nesse período. A canção grega do terceiro século, o hino Oxyrhynchus, sobreviveu com notação musical, mas a conexão entre esse hino e a tradição do cantochão é incerta.

Os elementos musicais que poderiam ser usados no Rito Romano começaram a aparecer no terceiro século. A Tradição Apostólica, atribuída ao teólogo Hipólito, atesta o canto dos salmos Hallel com o Alleluia como refrão, nas primeiras festas de Ágape Cristãs. Os cantos do Ofício, cantados durante as horas canônicas, tiveram suas raízes no início do século IV, quando os monges do deserto seguiam S. Antonios (S. Antão), que introduziu a prática da salmodia contínua, cantando o ciclo completo dos 150 salmos semanalmente. Por volta de 375, a salmodia antifonal tornou-se popular na Páscoa Cristã; em 386, Santo Ambrósio introduz essa prática no Ocidente.

No entanto, especialistas ainda debatem como o cantochão se desenvolveu durante os séculos V ao IX, pois a informação sobre esse período é escassa. Por volta de 410, Santo Agostinho descreve o canto responsorial de um salmo Gradual na Missa. Cerca de 520, São Bento de Nursia estabeleceu o que foi chamado de Regra de São Bento, na qual o protocolo do Ofício Divino se baseou para o uso monástico. Por volta de 670, o Canto Romano foi levado a York (Inglaterra). Surgiram tradições regionais distintas do cantochão ocidental nesse período, notavelmente nas Ilhas Britânicas (Canto Celta), Espanha (Moçárabe), Gália (Galicano), e Itália (Romano Antigo, Ambrosiano e Beneventano). Essas tradições poderiam estar ligadas a partir de um repertório cantochão hipotético surgido por volta do século V, depois da queda do Império Romano do Ocidente.

O repertório Gregoriano foi sistematizado para o uso no Rito Romano. De acordo com James McKinnon, o centro litúrgico da Missa Romana foi compilado durante um breve período no séc. VIII num projeto vislumbrado por Chrodegang de Metz. Outros estudiosos, incluindo Andreas Pfisterer e Peter Jeffery, argumentam por uma origem anterior para os níveis mais antigos do repertório.

Os estudiosos debatem se as essências das melodias foram originadas em Roma, antes do séc. VII, ou na Francia (atual França), no séc. VIII e início do IX. Tradicionalistas procuram sustentar a evidência no Papa Gregório Magno, entre 590 e 604, tal como foi apresentado por H. Bewerung em seu artigo na Enciclopedia Catolica. Um consenso entre os estudiosos, defendido por Willi Apel e Robert Snow, afirmam que o Canto Gregoriano se desenvolveu por volta de 750 a partir da síntese do canto Romano com o Galicano, supervisionado pelas regras Carolíngias na França. Durante a visita à Gália em 752-753, o Papa Estevão II celebrou a Missa usando Canto Romano. De acordo com Carlos Magno, seu pai Pepino, o Breve, aboliu os ritos locais Galicanos em favor do uso Romano, no sentido de fortalecer laços com Roma.

Em 785-786, a pedido de Carlos Magno, o Papa Adriano I, enviou um sacramentário papal com Cantos Romanos para a corte Carolíngia. Esses cantos foram modificados posteriormente, influenciados pelos estilos locais e o Canto Galicano, posteriormente adaptados ao sistema de oito modos. Esse canto Franco-Romano-Carolíngio, aumentado com novos cantos para completar o ano litúrgico, tornou-se conhecido como “Gregoriano”. Na sua origem, o canto foi provavelmente nomeado assim em honra ao papa Gregório II, que era contemporâneo, mas, posteriormente atribuída a autoria do canto ao seu famoso antecessor, Gregório Magno. Ele é retratado como ditando o cantochão, inspirado por uma pomba, que representa o Espírito Santo, dando ao Canto Gregoriano o aval de autoridade sagrada.